Resolução 4.557 – Aculturamento em gerenciamento de riscos com indicadores da RAS – parte 1

Resolução 4.557: Aculturamento em gerenciamento de riscos com indicadores

Como o monitoramento de indicadores pode contribuir com o aculturamento em gerenciamento de riscos? Indicadores não são novidade alguma, principalmente quanto maior for a instituição financeira. Mas nos diferentes estágios de maturidade em instituições de pequeno porte, onde a baixa escala leva à dificuldade ou não priorização para coleta e tratamento de dados, a adoção de indicadores atende requisitos imediatos da resolução pelo monitoramento do apetite por riscos da RAS e inclui o hábito de utilização desses recursos do gerenciamento de riscos.

Além de atender os indicadores da RAS, aculturamento em gerenciamento de riscos

Detalhamos no artigo metodologia SRC do Banco Central que a nota final do Supervisor levará em conta a governança implementada pela instituição e sua percepção dos riscos. No artigo RAS – além do documento, indicadores de monitoramento do apetite por riscos devem constar no documento. Montar, capacitar e utilizar indicadores é um dos caminhos para aculturamento prático na gestão de riscos. Outros benefícios são sua inevitável formação da base de dados, necessários para futura evolução nos modelos de testes de estresse, além de quantificar ajustes e prioridades entre os diversos processos de gerenciamento de riscos e de negócios. A numeração e itens dentro do texto a seguir, uma analogia didática do assunto, referem-se à figura principal.

Instabilidade provocada por um novo fator interno e tratamento reativo

  • 1-Supondo uma mesa de bilhar pequena com 4 pés de igual tamanho sobre um piso plano que foi testada pelo fabricante e enviada para um campeonato organizado por você.
  • 2-Durante o transporte, alguns pés foram danificados, perdendo alguns pedaços de suas pontas. Sem que ninguém soubesse, essa mesa colocada sobre outro piso plano dava um aparente ar de normalidade. Pela falta de tempo e confiança no teste de qualidade da fábrica, a mesa não foi testada. Até que um jogo foi iniciado. Mas levemente tombada, as bolas não paravam no lugar. Assim, a sensibilidade de algo errado ocorreu apenas com o uso da mesa e seu respectivo tratamento só iniciado de forma reativa, em pleno jogo cercado pelo público reunido após exaustivo trabalho de divulgação e venda, comprometendo a credibilidade por regras justas e desconforto pela espera em solucionar o problema.

Monitoramento com indicadores para tratamento proativo

  • 3-Havendo indicadores qualitativos da mesa recebida, eles teriam a capacidade de identificar os pés mais curtos, permitindo você instalar pedaços de madeira embaixo deles pró-ativamente antes do jogo. Também não dependeria de iniciativa de alguém reportar o dano, pois nesse caso, os indicadores já sinalizam de forma tempestiva e impessoal. Mesmo assim, os indicadores qualitativos ainda não seriam o ideal, pois desconhecendo-se a espessura dos pedaços de madeira necessários, haverá um processo de tentativa e erro até o nivelamento completo, exigindo mais tempo para solução. E com o iminente início do campeonato, tempo será o recurso mais escasso dentre todos, podendo encarecer o tratamento face à urgência da solução.
  • 4-Com indicadores quantitativos, as medidas dos pés seriam conhecidas antecipadamente, permitindo a instalação de pedaços de madeira mais adequados desde a primeira tentativa de correção, com menos interações para atingir a solução. O investimento na coleta e no monitoramento do indicador retornará com efeito multiplicador por meio de um tratamento mais rápido, planejado, organizado e maior opção de custos pesquisados.
  • 5-Além de fatores internos, como a altura dos pés, podemos ter o efeito de fatores externos, como o nivelamento do piso (6) combinado com sua irregularidade (7). Mais importante se torna conhecer ao menos seus números internos para compensar o efeito final com os fatores externos, que possuem maior dificuldade de serem mensurados como a ‘irregularidade do piso’. Esse quinto cenário está mais próximo da realidade corporativa. Somemos ainda a dinamicidade da mudança de todos esses fatores ao longo do tempo.

Monitoramento de indicadores de apetite por riscos

Nessa pequena analogia, as instituições ou os indicadores dentro da mesma instituição podem estar em diferentes estágios de maturidade: sem monitoramento, com indicadores qualitativos ou quantitativos, tanto para fatores internos como fatores externos. Quanto mais se aproximar da capacidade de quantificação, trará benefícios de:

  • Maior capacidade de antecipar tratamentos e consequente pesquisa de custos.
  • Melhor alocação da quantidade adequada de recursos.
  • Priorizar frentes a serem tratadas com base numérica.
  • Basear decisões em números que, se não antecipam completamente o futuro, ao menos permitem decidir a partir de dados históricos aplicando seu devido peso na decisão.
  • Atender a resolução quanto ao monitoramento de apetite por riscos, cujos níveis mais estratégicos devem constar na RAS.

Fontes iniciais para o monitoramento de indicadores

  • Tolerância e apetite por risco: Independentemente da resolução 4.557, inúmeros limites regulatórios já devem ser monitorados. Esses são limites de tolerância. Na RAS, a resolução trata do monitoramento dos limites de apetite por riscos. Ambos são conceitos também tratados no COSO 2017. A captura dos valores do desempenho (ou perfil) pode ser feita a partir de dados já disponíveis em todas instituições financeiras, tais como arquivos enviados ao regulador ou seus registros contábeis.
  • Arquivos enviados ao regulador: contém informações contábeis ou de risco para o pilar I da Basileia (*). Conhecidos como CADOC’s, tais como COS, DLO, DRL, DRM, DDR, SCR, entre outros, essa fonte de dados já é gerada pela instituição e fruto de diversas consolidações e confiáveis, uma vez que são enviadas ao regulador.
  • Razão e balancete contábil: Comparado com outros setores econômicos, o segmento bancário é um dos que possui sua contabilidade mais próxima de representar a rotina de suas atividades por conta da regulamentação e supervisão do Banco Central. Razões e posições contábeis podem destacar pontos de gargalo, tais como os personagens do livro ‘A meta’ (Elyahu M. Goldratt) que buscaram indicadores a partir de seus dados contábeis para identificar seus problemas de altos estoques semiacabados. Não é exaustivo, mas também é uma fonte de informações já disponível dentro da instituição.

Quantos, quais tamanhos e onde instalar os ‘pedaços de madeira’?

  • A total ausência de indicadores fará com que uma organização gerencie problemas ‘inesperados’, assunto abordado no artigo RAS – além do documento, o que geralmente levará à interrupção momentânea de maior ou menor período, e de forma reativa terá grande probabilidade dessa solução urgente encarecer e/ou não atender no longo prazo.
  • O conhecimento de indicadores qualitativos permite antecipar de forma proativa tratamentos em potenciais riscos com variados graus de acerto e planejamento.
  • Mas onde for possível, indicadores quantitativos, por mais que representem algum custo e esforço em obtê-los, trarão proporcionalmente benefícios multiplicados: seu plano de mitigação de risco terá condições de quantificar os ‘pedaços de madeira’, pesquisar opções de custos, priorizar e aplicar de forma controlada, organizada e proativa.
  • E pró-atividade é uma meta explícita dessa resolução, conforme o parágrafo 3º do artigo 2º do capítulo I que trata do escopo ‘As instituições de que trata o caput devem adotar postura prospectiva quanto ao gerenciamento de riscos e ao gerenciamento de capital’. As percepções do Supervisor sobre essa postura serão capturadas e influenciarão em eventual necessidade de alocação de capital adicional ou maior frequência de supervisão (artigo GPS e ADD-ON).
  • Independentemente da resolução, falando de negócios, quem consome produto ou serviço até pode se sensibilizar com o tamanho do trabalho e danos solucionados, mas eles simplesmente exigem consumir o que de direito foi combinado e pelo qual estão pagando. Antecipar tratamentos de forma mais assertiva possível reverterá benefícios no livre arbítrio de escolha do consumidor em repetir ou não o mesmo fornecedor.

Yoshio Hada

(*) Em https://www.bcb.gov.br/fis/supervisao/basileia.asp : “além dos Princípios Essenciais para uma Supervisão Bancária Eficaz (Princípios da Basileia), três pilares mutuamente complementares:

  1. Pilar 1: requerimentos de capital para risco de crédito, mercado e operacional;
  2. Pilar 2: revisão pela supervisão do processo de avaliação da adequação de capital dos bancos; e
  3. Pilar 3: disciplina de mercado.”

 

Fontes

Resolução 4.557 – GPS: Guia de práticas de supervisão do BC: a metodologia SRC – parte 2

http://b3bee.com.br/site/2018/02/22/resolucao-4-557-gps-guia-de-praticas-de-supervisao-do-bc-a-metodologia-src-parte-2/

Resolução 4.557 – GPS: Guia de práticas de supervisão do BC e o ADD-ON – parte 1

http://b3bee.com.br/site/2018/02/11/resolucoes-4-557-e-4-019-gps-guia-de-praticas-de-supervisao-do-bc-e-add-on-parte-1/

Resolução 4.557 – Declaração de Apetite por Riscos (RAS) – parte 2 – Além do documento:

http://b3bee.com.br/site/2018/01/29/resolucao-4-557-declaracao-de-apetite-por-riscos-ras-parte-2-alem-do-documento/

GPS-Guia de Práticas da Supervisão do Banco Central:

https://www3.bcb.gov.br/gmn/visualizacao/listarDocumentosManualPublico.do?method=listarDocumentosManualPublico&idManual=1#fix

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